Um presidente descobre a dúvida

A GRAÇA

O cinema italiano tem um modo próprio de tratar com ironia as figuras de poder. Paolo Sorrentino é um cultor dessa tradição, como já vimos em Il Divo (sobre Giulio Andreotti), Loro (sobre Silvio Berlusconi) e na série The Young Pope (sobre Pio XIII). A Graça (La Grazia) enfoca um fictício presidente da Itália, Mariano De Santis, que poderia ser qualquer um oriundo da conservadora Democracia Cristã.

Mariano está a seis meses da aposentadoria, só tem um pulmão e a saúde monitorada pela filha, que parece se dedicar somente a ele e aos estudos de direito. Jurista de formação, ele carrega o apelido de Concreto Armado por seu currículo de imobilidade e inflexibilidade. Tomar decisões sempre lhe custou muito, e ele agora precisa deliberar sobre dois assuntos complexos: uma lei que legaliza a eutanásia e o indulto de duas pessoas que cometeram assassinatos.

Ao dilema ético soma-se uma inquietação de longa data. Mariano ainda quer descobrir a identidade do amante com quem sua mulher, já falecida, o traiu 40 anos antes. Uma questão de estado e uma dúvida pessoal o arrastam para mais uma crise. Além da filha, seus interlocutores mais próximos representam outras instâncias de poder: o civil, nas figuras do seu Ministro da Justiça e do segurança particular; o militar, na farda do general do Exército; e o religioso, na pele de um Papa negro, barbudo, de rabo de cavalo e ainda por cima motoqueiro.

As duas grandes demandas que Mariano tem pela frente chegam a se confundir. Os criminosos alegam que mataram seus respectivos companheiros por piedade, a fim de não prolongar o sofrimento deles. Seria, de certa forma, uma eutanásia. Mas o presidente hesita entre bancar o torturador, obrigando doentes a uma morte com sofrimento, e ser chamado de assassino por autorizar a antecipação dos óbitos.

O título La Grazia tem a riqueza do termo em italiano. Grazia pode significar a graça divina, uma gentileza pessoal, o perdão e também o indulto judicial.

Paolo Sorrentino administra um fino equilíbrio entre o humor das caracterizações e dos diálogos, e as posturas hieráticas dos atores e da encenação, quase uma caricatura do formalismo oficial. Toni Servillo, seu ator-fetiche, é a encarnação perfeita desse homem austero e frágil, impávido até a medula, dividido entre suas convicções e os apelos de uma sociedade que quer se mover no tempo. O antigo juiz ainda se apega a uma utópica busca da verdade ao mesmo tempo que começa a descobrir as virtudes da dúvida.

Eis um personagem que, sem buscar identificação com o espectador, é capaz de conquistar sua adesão pelo estranhamento. O gosto pelo rap e o patético trauma conjugal quebram a rigidez de sua imagem. O fim do seu mandato e da carreira política seriam o passaporte para uma vida “sem gravidade” (eis mais uma palavra com sentido múltiplo). Mariano sente inveja do astronauta italiano que chora enquanto flutua em sua nave.

>> A Graça está nos cinemas.

 

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